Viajando como um local: Caraíva - Parte 1


O que esperar de alguma coisa quando você não sabe quase nada sobre ela?
Quando decidimos conhecer Caraíva, queríamos mais do que simplesmente visitar um lugar bonito.
Afinal, se existe uma coisa que o Long Life Locals defende é justamente isso: viajar não deveria ser apenas sobre lugares. Deveria ser sobre pessoas.
O projeto nasceu de uma pergunta simples:
E se nossas viagens pudessem fazer mais pelas comunidades que visitamos?
A ideia é incentivar viajantes a criar conexões significativas com as comunidades locais, conhecer quem vive nos destinos e, principalmente, apoiar os pequenos negócios e as pessoas que investem localmente.
Em vez de simplesmente passar por um lugar, queremos entender quem está ali, ouvir suas histórias, consumir localmente e deixar uma contribuição positiva para a economia daquela comunidade.
E foi com esse espírito que chegamos a Caraíva.
Uma vila afastada, onde até hoje tempo só se chega de barquinho.
Começamos entrando em contato com empreendedores locais e associações que, de alguma maneira, já viviam no dia a dia aquilo que o Long Life Locals acredita: que o turismo pode ser uma ferramenta para fortalecer as pessoas que vivem nos destinos que visitamos.
Por ser um lugar pequeno, não sabíamos exatamente o que nos esperava.
Haveria pessoas com uma mentalidade de colaboração ou de competição?
Cada negócio estaria tentando sobreviver sozinho ou existiria uma rede de pessoas se ajudando?
Será que encontraríamos uma comunidade aberta a essa ideia de turismo mais consciente?
Não demorou muito para descobrirmos que Caraíva tinha algo especial.
A maioria das pessoas que nos respondeu num primeiro contato não apenas entendeu nossa proposta, como também disse que aquele era um momento perfeito para estarmos ali.
E isso não foi por acaso.
Nós queríamos chegar na baixa temporada. Estávamos no fim de Agosto.
Queríamos conhecer a essência da vila, conversar com as pessoas, entender como a comunidade funcionava e, claro, evitar aquela experiência “maravilhosa” de viajar milhares de quilômetros para depois passar duas horas numa fila para comprar alguma coisa.
Queríamos viajar e ter a experiência de quem vive ali.
E isso também fazia parte da experiência do Long Life Locals.
Começamos entrando em contato com algumas pousadas que havíamos pesquisado antes, justamente porque sabíamos que já faziam parte da comunidade local.
A primeira a responder — e a iniciar uma parceria linda — foi a Pousada Villa Fulô.
Mas essa história merece um capítulo só dela.
Então, fica para a Parte 2. Mas algumas coisas ja podemos falar da pousada.
De início, ficamos encantados com a maneira como eles pareciam integrar a natureza a uma arquitetura e decoração lindamente brasileiras.
O site e o Instagram transmitiam exatamente aquela conexão que estávamos buscando.
Só faltava descobrir se, pessoalmente, tudo aquilo fazia sentido.
Depois de alguns e-mails trocados com um dos proprietários, eles concordaram em colaborar conosco e abriram a pousada para que pudéssemos ter uma experiência realmente imersiva no local.
A pousada também ofereceu ajuda com o traslado do aeroporto.
Mas decidimos não aceitar.
Não porque não gostássemos de conforto.
Muito pelo contrário.
Mas porque queríamos viver a experiência de verdade, queríamos estar viajando como um local
Se o Long Life Locals fala sobre conhecer a vida local, precisávamos começar pelo caminho até lá.
E o caminho de chegada já foi mágico.
As quase três horas de viagem passaram quase despercebidas enquanto acompanhávamos, literalmente, a vida local acontecendo.
Do aeroporto, pegamos um táxi até a balsa. Dez minutos depois, estávamos em uma pequena fila de umas oito pessoas para comprar o bilhete da embarcação que levava pessoas e carros para o outro lado do rio.
Do outro lado, descobrimos que a última van para Caraíva já estava lotada. Nossa alternativa seria pegar um ônibus local.
Eu tinha pesquisado antes e sabia que havia apenas dois ônibus por dia para a vila. O que eu não tinha pesquisado direito era o horário. Erro clássico de viajante que acha que pesquisou tudo.
Depois, conversando com o motorista da van, descobri que poderíamos ter reservado antes. (Vou deixar o contato dele no final do artigo)
Como ainda tínhamos quase duas horas até o ônibus sair, decidimos explorar a região. Perguntamos a alguns moradores e motoristas onde poderíamos ir.
A recomendação foi simples:
A praia.
A apenas uns 300 metros dali.
A mágica de perguntar para quem é local nunca deixa de me surpreender.
Entramos por uma viela escondida e, cinco minutos depois: Voilà!
Uma praia exuberante nos aguardava, com um mar azul, mexido e lindo.
Era como se as ondas estivessem nos dizendo para nos acostumarmos com o vai e vem da vida.
Sentamos na areia e, pouco depois, um anfitrião veio nos receber abanando o rabo.
O cachorro era praticamente uma versão baiana do famoso caramelo: tranquilo, simpático e sem nenhuma pressa de absolutamente nada.
Ele se achegou e deitou entre nós, fazendo a maior folia.
Fiquei imaginando o quanto temos a aprender com aquela tranquilidade — e com aquela capacidade de fazer festa com tão pouco.
Vindo de uma cidade grande, aquela cena parecia quase impossível.
E talvez seja exatamente esse o ponto.
Viajar pode nos mostrar outras maneiras de viver.
Mesmo sendo sábado, havia pouca gente na praia e no restaurante próximo.
Fui perguntar se eles estavam fechando.
Foi quando o cheiro de comida fresquinha me atacou.
Claramente, era uma armadilha.
Ficamos para comer alguma coisa e conversar com o garçom.
Ele nos contou que, mesmo com o tempo perfeito — aquele sol que aquece diferente do sol de verão que derrete seu cérebro (mais um benefício de viajar na baixa temporada) —, por algum motivo que ninguém sabia explicar, o lugar estava mais parado do que em qualquer outro dia.
Comemos um peixe local à milanesa, com gosto de verão em pleno inverno, e voltamos para o ponto de ônibus.
O nosso já nos esperava. O ônibus não era exatamente como os ônibus da cidade.
Parecia mais um ônibus de viagem, com poltronas mais confortáveis do que as de avião, mas com a lataria do lado de fora denunciando que algumas batalhas já tinham sido travadas.
E, quando pegamos a estrada de terra, veio a lembrança do período em que morei na Índia.
No caminho, conhecemos uma mulher da região puxou papo com a gente, e disse que também estava lendo o livro que estávamos lendo.
Conversamos sobre ele, sobre outros livros da mesma autora e, algum tempo depois, o motorista nos avisou — com a maior naturalidade do mundo — que iríamos parar no meio do nada.
Seria numa cidadezinha simples, mas charmosa, para esticar as pernas e tomar um café.
Mais uma vez, me senti na Índia.
Fui até o bar próximo ao ônibus, sempre olhando para trás com medo de ele partir sem mim.
Mas encontrei o motorista sentado tranquilamente num canto, tomando café — É aqui que você se esconde! — falei. Ele riu.
Conversamos um pouco sobre a vida dele.
Fazia aquele mesmo trajeto havia anos, quatro vezes por dia.
Por alguns minutos, parecia que o tempo tinha simplesmente decidido dar uma pausa.
E foi justamente nesses pequenos momentos que comecei a entender melhor o que significa viajar pensando nos locais.
Não era apenas sobre pegar um ônibus diferente.
Era sobre olhar para quem estava dirigindo aquele ônibus.
Era sobre se interessar pelo outro.
Ouvir.
Conversar.
Descobrir.

Para mim, que estava vindo de São Paulo, com toda a velocidade e o estresse da cidade, aquela desaceleração foi como um banho quente num dia frio.
Quase uma miragem.
Depois de algum tempo, partimos novamente.
Uma hora depois, chegamos ao fim da jornada.
Bom…do fim da jornada de ônibus.
Ainda tínhamos uma pequena canoa para cerca de oito pessoas, atravessando um braço do rio que provavelmente daria para cruzar nadando. Do outro lado, alguns moradores ofereceram levar nossas malas em carroças puxadas por jegues. Como tínhamos apenas mochilas e uma pequena mala de mão, decidimos seguir a pé mesmo.
A última parte da nossa jornada milenar estava chegando ao fim.
Caminhamos cerca de dez minutos pelas ruas de areia da vila.
Lembro que, no caminho, me perguntei se tudo aquilo realmente compensava para chegar até ali.
Eu ainda não sabia dizer se gostaria de voltar para aquela vila novamente.
Mas tudo mudou quando tivemos as primeiras impressões de Caraíva e chegamos à nossa pousada parceira, a Villa Fulô.
Aí tudo fez sentido.
E, naquele momento, eu soube que faria aquele trajeto novamente quantas vezes fossem necessárias.
Porque talvez essa seja uma das grandes diferenças entre simplesmente viajar para um lugar e realmente conhecer o lugar.
Quando você escolhe olhar para as pessoas, conversar com elas, usar os serviços locais, conhecer seus negócios e ouvir suas histórias, a viagem começa muito antes de chegar ao destino. E viajar na baixa temporada nos permite isso tudo
E Caraíva estava apenas começando a nos mostrar isso.
Continua no próximo capítulo...
Ps. Homen da Van de Arraial D’Ajuda para Caraiva +55 (73) 98142.3804

Comentários