Caraíva: quando viajar é muito mais do que visitar


Confesso que não sabia muito o que esperar.
Geralmente, leio bastante sobre o lugar que vou visitar. Dessa vez, porém, decidi me surpreender.
As únicas coisas que sabia eram que não havia carros na vila e que a energia elétrica das ruas era subterrânea.
Decidi ir para Caraíva para conhecer melhor as pessoas locais, aprender mais sobre as comunidades indígenas da região e entrevistar algumas pessoas-chave que vivem ali.
Antes da viagem, entrei em contato com alguns donos de pousadas que pareciam ter uma visão mais consciente sobre a forma como operam seus negócios e sobre sua relação com a comunidade local.
Bem antes de embarcar para a Bahia, já tinha conversado online com uma delas: Herminia, dona da Pousada Lagoa.
A conversa foi tão boa que decidimos marcar um dia para uma conversa mais longa, gravada na pousada dela. A entrevista em vídeo já está disponível na nossa página no YouTube (assista aqui!)

É incrível como uma conversa curta pode dar início a uma amizade e a uma conexão tão bonita.
Herminia me contou que se interessou pelo projeto do Long Life Locals (Vida Longa aos Locais) porque ele ia ao encontro do que ela e outras pessoas de Caraíva estavam buscando: focar mais nas pessoas, nas histórias e em atrair visitantes mais conscientes para o lugar.
Assim como o nosso projeto, ela acredita em um crescimento turístico mais sustentável, onde a conexão humana pode ser uma das chaves para o crescimento econômico da vila e de seus moradores.
Outra pessoa-chave foi Rodrigo Furtado — bonito nome, eu sei — um dos donos da Pousada Villa Fulô.
Uma pousada tão bonita, planejada e conectada com a natureza e com as pessoas que trabalham ali que faz você se sentir acolhido em diferentes cantos do lugar.
Rodrigo abriu sua pousada — e um pouco da sua vida — para que eu pudesse ter uma experiência imersiva e entender de perto como uma relação positiva, humana e respeitosa com funcionários e comunidade local pode acontecer de forma tão bonita.
A entrevista em vídeo e a matéria logo estarão disponíveis também na nossa página no YouTube.

Eu sabia que não era só eu que acreditava que uma nova forma de viajar era possível.
O turismo movimenta bilhões de dólares todos os anos. Mas boa parte desse dinheiro não chega às mãos de quem realmente vive e trabalha com o turismo localmente.
Isso acontece, entre outras razões, porque grandes empresas multinacionais e internacionais atuam em países mais pobres e acabam levando uma parte significativa dos lucros para fora do país.
É o que chamamos de “tourism leakage”, ou vazamento do turismo.
Em alguns casos extremos, como em Gana, esse vazamento pode chegar a cerca de 75% do valor gerado pelo turismo.
E qual é a consequência?
Pessoas que tentam viver do turismo local acabam tendo dificuldade para competir com grandes empresas, seja em preço, escala ou até mesmo na percepção de qualidade dos serviços.
Mas não era isso que eu estava encontrando em Caraíva.
Ali, pessoas locais e outras que chegaram para viver na vila se uniram há alguns anos, criando associações e grupos de ajuda mútua onde todos podem ganhar: os negócios, os turistas e, principalmente, os moradores locais.
Depois de cinco dias — que passaram rápido demais, mas foram suficientes para eu me apaixonar pelo lugar — pude conhecer um pouco dessas uniões, dessas pessoas e de suas histórias.
E foi justamente isso que mais me chamou a atenção.
Caraíva não é apenas um destino turístico, é uma comunidade.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores possibilidades para o futuro do turismo: criar lugares onde o crescimento econômico não aconteça apesar das pessoas que vivem ali, mas por causa delas.
Nos próximos artigos, vou contar mais sobre como Caraíva se ajudou — e ainda se ajuda — a construir algo quase único no turismo:
crescer de forma sustentável, fortalecer a economia local e atrair pessoas mais conscientes, que deixam de ser meros turistas e passam a ser viajantes que apoiam os serviços, os negócios e as pessoas locais.
Porque viajar pode ser muito mais do que conhecer um lugar.
Pode ser uma forma de mudar a economia de quem vive nele.
Rodrigo Baena
Founder - Long Life Locals




Comentários